TANGOLOMANGO BRASILEIRO
A análise a seguir é original: pelo menos
ainda não li nenhum texto semelhante na internet. É fruto de meditações e
observações dos últimos anos. Ela tenta explicar a “onda conservadora” no
Brasil atual.
Para começar, esta frase da música “Fado
Tropical”, do Chico Buarque: “Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa
dosagem de lirismo”. Existe grande diferença no ethos (cultura e temperamento)
dos povos de língua portuguesa (Portugal e Brasil) e espanhola (Espanha e
América Latina). Os primeiros são gentis, acomodados, conservadores e emotivos.
Os segundos são aguerridos, passionais e revolucionários. Musicalmente é
evidente a diferença: ao fado português - molenga e sentimental - contrapõe-se
a música flamenga e o tango - expressiva, forte, máscula. Na história da
colonização da América, desde o século XVI, observa-se uma distinção gritante:
os portugueses se apossaram da costa oriental sem necessidade de lutas, pois os
índios eram “pacíficos”; os espanhóis tiveram de fazer guerra a astecas e
incas, com civilizações avançadas. Outras dissemelhanças existem, mas deixo-as
para as análises acadêmicas de antropólogos, sociólogos e cientistas políticos.
Esta questão envolvendo as duas Nações da
Península Ibérica (Portugal e Espanha) ficou clara para mim no ano passado,
quando fiz uma pesquisa profunda sobre Revisionismo Histórico, um estudo
“revolucionário”. Fiz o download de 2.555 ebooks na língua espanhola, ao passo
que, em português, foram apenas 324. No Brasil houveram pouquíssimos
revisionistas, e o principal deles foi o gaúcho Castan, descendente de alemães,
dono da Editora Revisão. Na América Latina, principalmente na Argentina, no
Chile e no México, o revisionismo foi fortíssimo. Aliás, ainda é. E no que
respeita ao Anarquismo, é só lembrar a piada. Quando um espanhol chega num
país, pergunta: - Hay govierno? Após responderem afirmativamente, ele retruca:
- SOY CONTRA!!!... Os movimentos anarco-socialista do final do século XIX e
início do século XX foram também expressivos entre os castelhanos. Aqui no
Brasil, foi adotado PRINCIPALMENTE por imigrantes espanhóis e italianos.
No Brasil, no Nordeste, tivemos Lampião
(um bandido) e Antônio Conselheiro (um místico). No Rio Grande do Sul
(proximidade com Argentina, Uruguai e Paraguai): Getúlio Vargas, Brizola e
Jango. Já li quase toda a obra do Érico Veríssimo, onde estão retratadas as
inúmeras guerras revolucionárias dos pampas. Há que lembrar do Tiradentes, do
Prestes, da guerrilha durante a Ditadura Militar pós 64, e outros episódios
revolucionários. Mas, no conjunto, o quadro brasileiro de contestação política
é tímido e pouco expressivo, COMPARANDO-O com as lutas ingentes e constantes em
todos os países da latino-américa. Uma das explicações para este “marasmo” é a
seguinte. Por seu tamanho gigantesco, por sua riqueza inesgotável, o Brasil
SEMPRE foi explorado por Portugal, Inglaterra e Estados Unidos. Se tal não
ocorresse, ele tornar-se-ia uma Grande Potência. O povo brasileiro vive há
séculos sob a chibata do imperialismo do Primeiro Mundo.
Aí entrou em cena o nordestino-paulista
Lula, na luta sindical e política. No início, o Partido dos Trabalhadores tinha
um programa realmente de esquerda e de tendência socialista. Mas, para a
conquista do Poder, abriu mão destes princípios e acabou chegando à
Presidência. O governo de Lula, na Economia, NÃO FOI DE ESQUERDA.
Politicamente, foi REFORMISTA. Ele realizou muitas obras, é claro, mas a
administração petista cometeu inúmeros erros de OMISSÃO, ao jogar na lata do
lixo o que o partido tinha de melhor no seu programa. Tudo isto foi abordado
por mim – à exaustão – na minha AUTOCRÍTICA, como se pode ler no blog “PT –
Crítica”: https://ptcritica.blogspot.com/2016/05/parte-1.html Por isto não vou entrar em mais detalhes. Só resta
dizer que o culto à personalidade do Lula, o distanciamento da liderança
nacional de suas bases, o silêncio acovardado da militância, os inúmeros erros
no Governo Federal, e uma perseguição implacável de toda a direita, provocaram
a QUEDA do Partido e – pior ainda – PRATICAMENTE A DESTRUIÇÃO DA ESQUERDA.
Lembro-me que se dizia, há muitos anos, que o Lula foi invenção do gênio
Golbery, ou seja, a melhor forma de atacar a esquerda seria DEIXÁ-LA chegar ao
Poder para que, com o natural desgaste da exposição administrativa, ela própria
se destruísse. “Se non è vero, è molto ben trovato”. Pois foi exatamente isto
que aconteceu.
A onda conservadora que atualmente assola
o mundo, com sua democracia decadente e seu liberalismo capitalista, é forte
nos países de pouca tradição revolucionária, COMO O BRASIL. Nas Nações americanas
de língua espanhola, porém, esta onda ainda encontra muita resistência. Haja
visto que temos presentemente um país em plena rebelião, – a Venezuela –, sem
entrar no mérito de sua política interna. Levando em conta o que escrevi acima
em relação ao ethos português-espanhol, está aí explicada e justificada a razão
da facilidade de penetração deste “vírus conservador” entre nós. E lembrando o
poema Pneumotórax, de Manuel Bandeira, perante o TRISTE FADO desta PANDEMIA
REACIONÁRIA que crassa por estas plagas tupiniquins, ao povo brasileiro nem
sequer resta “TOCAR UM TANGO ARGENTINO”!...
PS: Há uma explicação esotérica para a
alma “gentil” na índole do povo brasileiro, com toda a sua “pachorra” e
“espírito carnavalesco”, vendo o nosso país como o “coração do mundo” e a
“pátria do evangelho”, como dizem os espíritas, na sua miscigenação racial, etc.
É que ao Brasil estaria reservado o papel de líder mundial na Nova Civilização
do Terceiro Milênio, como afirmam até mesmo teosofistas e eubiotas. Mas o que
esperar de um povo social e politicamente tão conservador?!... Os melhores
valores espirituais não estariam na Coragem e na Força?!... Com a palavra os
ocultistas.
