segunda-feira, 1 de junho de 2020

TANGOLOMANGO BRASILEIRO


TANGOLOMANGO BRASILEIRO

      A análise a seguir é original: pelo menos ainda não li nenhum texto semelhante na internet. É fruto de meditações e observações dos últimos anos. Ela tenta explicar a “onda conservadora” no Brasil atual.
      Para começar, esta frase da música “Fado Tropical”, do Chico Buarque: “Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo”. Existe grande diferença no ethos (cultura e temperamento) dos povos de língua portuguesa (Portugal e Brasil) e espanhola (Espanha e América Latina). Os primeiros são gentis, acomodados, conservadores e emotivos. Os segundos são aguerridos, passionais e revolucionários. Musicalmente é evidente a diferença: ao fado português - molenga e sentimental - contrapõe-se a música flamenga e o tango - expressiva, forte, máscula. Na história da colonização da América, desde o século XVI, observa-se uma distinção gritante: os portugueses se apossaram da costa oriental sem necessidade de lutas, pois os índios eram “pacíficos”; os espanhóis tiveram de fazer guerra a astecas e incas, com civilizações avançadas. Outras dissemelhanças existem, mas deixo-as para as análises acadêmicas de antropólogos, sociólogos e cientistas políticos.
      Esta questão envolvendo as duas Nações da Península Ibérica (Portugal e Espanha) ficou clara para mim no ano passado, quando fiz uma pesquisa profunda sobre Revisionismo Histórico, um estudo “revolucionário”. Fiz o download de 2.555 ebooks na língua espanhola, ao passo que, em português, foram apenas 324. No Brasil houveram pouquíssimos revisionistas, e o principal deles foi o gaúcho Castan, descendente de alemães, dono da Editora Revisão. Na América Latina, principalmente na Argentina, no Chile e no México, o revisionismo foi fortíssimo. Aliás, ainda é. E no que respeita ao Anarquismo, é só lembrar a piada. Quando um espanhol chega num país, pergunta: - Hay govierno? Após responderem afirmativamente, ele retruca: - SOY CONTRA!!!... Os movimentos anarco-socialista do final do século XIX e início do século XX foram também expressivos entre os castelhanos. Aqui no Brasil, foi adotado PRINCIPALMENTE por imigrantes espanhóis e italianos.
      No Brasil, no Nordeste, tivemos Lampião (um bandido) e Antônio Conselheiro (um místico). No Rio Grande do Sul (proximidade com Argentina, Uruguai e Paraguai): Getúlio Vargas, Brizola e Jango. Já li quase toda a obra do Érico Veríssimo, onde estão retratadas as inúmeras guerras revolucionárias dos pampas. Há que lembrar do Tiradentes, do Prestes, da guerrilha durante a Ditadura Militar pós 64, e outros episódios revolucionários. Mas, no conjunto, o quadro brasileiro de contestação política é tímido e pouco expressivo, COMPARANDO-O com as lutas ingentes e constantes em todos os países da latino-américa. Uma das explicações para este “marasmo” é a seguinte. Por seu tamanho gigantesco, por sua riqueza inesgotável, o Brasil SEMPRE foi explorado por Portugal, Inglaterra e Estados Unidos. Se tal não ocorresse, ele tornar-se-ia uma Grande Potência. O povo brasileiro vive há séculos sob a chibata do imperialismo do Primeiro Mundo.
      Aí entrou em cena o nordestino-paulista Lula, na luta sindical e política. No início, o Partido dos Trabalhadores tinha um programa realmente de esquerda e de tendência socialista. Mas, para a conquista do Poder, abriu mão destes princípios e acabou chegando à Presidência. O governo de Lula, na Economia, NÃO FOI DE ESQUERDA. Politicamente, foi REFORMISTA. Ele realizou muitas obras, é claro, mas a administração petista cometeu inúmeros erros de OMISSÃO, ao jogar na lata do lixo o que o partido tinha de melhor no seu programa. Tudo isto foi abordado por mim – à exaustão – na minha AUTOCRÍTICA, como se pode ler no blog “PT – Crítica”: https://ptcritica.blogspot.com/2016/05/parte-1.html Por isto não vou entrar em mais detalhes. Só resta dizer que o culto à personalidade do Lula, o distanciamento da liderança nacional de suas bases, o silêncio acovardado da militância, os inúmeros erros no Governo Federal, e uma perseguição implacável de toda a direita, provocaram a QUEDA do Partido e – pior ainda – PRATICAMENTE A DESTRUIÇÃO DA ESQUERDA. Lembro-me que se dizia, há muitos anos, que o Lula foi invenção do gênio Golbery, ou seja, a melhor forma de atacar a esquerda seria DEIXÁ-LA chegar ao Poder para que, com o natural desgaste da exposição administrativa, ela própria se destruísse. “Se non è vero, è molto ben trovato”. Pois foi exatamente isto que aconteceu.
      A onda conservadora que atualmente assola o mundo, com sua democracia decadente e seu liberalismo capitalista, é forte nos países de pouca tradição revolucionária, COMO O BRASIL. Nas Nações americanas de língua espanhola, porém, esta onda ainda encontra muita resistência. Haja visto que temos presentemente um país em plena rebelião, – a Venezuela –, sem entrar no mérito de sua política interna. Levando em conta o que escrevi acima em relação ao ethos português-espanhol, está aí explicada e justificada a razão da facilidade de penetração deste “vírus conservador” entre nós. E lembrando o poema Pneumotórax, de Manuel Bandeira, perante o TRISTE FADO desta PANDEMIA REACIONÁRIA que crassa por estas plagas tupiniquins, ao povo brasileiro nem sequer resta “TOCAR UM TANGO ARGENTINO”!...
      PS: Há uma explicação esotérica para a alma “gentil” na índole do povo brasileiro, com toda a sua “pachorra” e “espírito carnavalesco”, vendo o nosso país como o “coração do mundo” e a “pátria do evangelho”, como dizem os espíritas, na sua miscigenação racial, etc. É que ao Brasil estaria reservado o papel de líder mundial na Nova Civilização do Terceiro Milênio, como afirmam até mesmo teosofistas e eubiotas. Mas o que esperar de um povo social e politicamente tão conservador?!... Os melhores valores espirituais não estariam na Coragem e na Força?!... Com a palavra os ocultistas. 
(Texto escrito em 17-5-2020.)




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